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A imagem faz parte de um livro publicado no ano de 1647, por J. Blaeu (um importante cartógrafo holandês), em que está desenhado um conjunto de mapas do nordeste brasileiro, então ocupado pelos holandeses, decorados com cenas da vida quotidiana. A cena que apresentamos representa uma fazenda brasileira produtora de açúcar, na zona de Pernambuco.

4 de fevereiro de 2016

Viagem de Vasco da Gama (8) - Melinde

«Neste mesmo dia  [14 de abril] ao sol-posto lançámos âncora em direito dum lugar que se chama Melinde (...).
Ao dia de Páscoa nos disseram estes mouros, que tínhamos cativos, que em a dita vila de Melinde estavam quatro navios de cristãos, os quais eram índios; e que se os quiséssemos ali levar que dariam por si pilotos cristãos, e tudo o que nos fizesse mister, assim de carnes, água, lenha e outras coisas. E o capitão-mor, que muito desejava haver pilotos daquela terra, depois de termos tratado este partido com estes mouros, fomos pousar de fronte da vila (...)

A quarta-feira, depois do jantar, veio el-rei [de Melinde] em uma zavra, e veio junto dos navios; e o capitão saiu em o seu batel, muito bem corregido, e, quando chegou onde el-rei estava, logo se o dito rei se meteu com ele. E ali passaram muitas palavras e boas, entre as quais foram estas: dizendo el-rei ao capitão que lhe rogava que fosse com ele a sua casa folgar, e que ele iria dentro aos seus navios, e o capitão lhe disse que não trazia licença de seu senhor para sair em terra, e que se em terra saísse que daria de si má conta a quem o lá mandara; e o rei respondeu que se ele aos seus navios fosse que conta daria de si ao seu povo, ou que diriam? E perguntou como havia nome o nosso rei, e mandou-o escrever; e disse que se nós por aqui tornássemos que ele mandaria um embaixador ou escreveria. E depois de terem falado cada um o que queria, mandou por todos os mouros que tínhamos cativos, e deu-lhos todos; do qual ele foi mui contente, e disse que mais prezava aquilo que lhe darem uma vila. E o rei andou folgando derredor dos navios, donde lhe atiravam muitas bombardas e ele folgava muito de as ver atirar; e nisto andaram obra de três horas. E, quando se foi, deixou no navio um seu filho e um seu xerife; e foram com ele, a sua casa, dois homens dos nossos, os quais ele mesmo pediu que queria que fossem ver os seus paços. E mais disse ao capitão que pois ele não queria ir a terra que fosse ao outro dia, e que andasse ao longo da terra, e que ele mandaria cavalgar seus cavaleiros.

Estas são as coisas que o rei trazia. Primeiramente uma opa de damasco, forrada de cetim verde; e uma touca na cabeça, muito rica; e duas cadeiras de arame, com seus coxins; e um todo de cetim carmesim, o qual toldo era redondo e andava posto em um pau; e trazia um homem velho por pajem, o qual trazia um terçado que tinha a bainha de prata; e muitos anafis; e duas buzinas de marfim da altura de um homem, e eram muito lavradas e tangiam por um buraco que têm no meio; (...)


Ao domingo seguinte, que foram 22 dias do mês de Abril, veio a zavra de el-rei a bordo (...) E como foi o recado, el-rei lhe mandou logo um piloto cristão* (...). E folgámos muito com o piloto cristão que nos el-rei mandou.»

Relação da primeira viagem à Índia pela armada chefiada por Vasco da Gama

* Tratava-se de um famoso piloto árabe chamado Ahmad ibne Majid, que os cronistas portugueses denominaram Maleno Canaqua ou Cana.

Visita do rei de Melinde aos navios

Vasco da Gama ouvindo o piloto
(pintura de José Malhoa)


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