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A imagem faz parte de um livro publicado no ano de 1647, por J. Blaeu (um importante cartógrafo holandês), em que está desenhado um conjunto de mapas do nordeste brasileiro, então ocupado pelos holandeses, decorados com cenas da vida quotidiana. A cena que apresentamos representa uma fazenda brasileira produtora de açúcar, na zona de Pernambuco.

20 de fevereiro de 2016

Viagem de Vasco da Gama (10) - Encontro com o Samorim de Calecute

«E daqui nos fomos e, à entrada da cidade, nos levaram a outra, a qual tinha estas mesmas coisas acima contadas. Aqui recresceu a gente muito, que nos vinha ver, que não cabia pelo caminho. E, depois que fomos por esta rua um grande pedaço, meteram o capitão em uma casa e também nós outros com ele, por respeito da gente que era muita. Aqui mandou el-rei um irmão do bale, o qual era grande senhor nesta terra, o qual vinha para ir com o capitão, e trazia muitos tambores e anafis e charamelas e uma espingarda, a qual ia atirando ante nós; e assim levaram o capitão com muito acatamento, tanto e mais do que se podia em Espanha fazer a um rei. E a gente era tanta que não tinha conto; e os telhados e casas eram todos cheios, afora a que connosco ia de roldão, entre a qual gente iriam ao menos dois mil homens de armas; e quanto mais nós chegávamos para os paços, onde el-rei estava, tanto mais gente recrescia. E, tanto que chegámos ao paço, vieram para o capitão homens muito honrados e grandes senhores, afora outros muito que já iam com ele; e seria uma hora de sol quando chegámos aos paços; entrámos por uma porta a um terreiro muito grande e, antes que chegássemos à porta onde el-rei estava, passámos quatro portas, as quais passámos por força dando muitas pancadas à gente; e quando chegámos à derradeira porta, onde el-rei estava, saiu de dentro um velho, homem baixo de corpo, o qual é como bispo, e o rei se rege por ele nas coisas da igreja; o qual abraçou o capitão à entrada desta porta, e à entrada dela se feriram homens e nós entrámos com muita força. El-rei estava em um patim, lançado de costas em uma camilha, a qual tinha estas coisas: um pano de veludo verde debaixo e, em cima, um colchão muito bom; e, em cima do colchão, um pano de algodão muito alvo e delgado, mais do que nenhum linho; e também tinha almofadas deste teor; e tinha à mão esquerda uma copa de ouro muito grande, da altura de um pote de meio almude, e era da largura de dois palmos na boca, a qual era muito grossa, ao parecer; na qual talha lançava bagaço de umas ervas, que os homens desta terra comem pela calma, a qual erva chamam atambor; e da banda direita estava um bacio de ouro, quanto um homem pudesse abranger com os braços, em o qual estavam aquelas ervas, e muitos agomis de prata, e o céu de cima era todo dourado. E assim, quando o capitão entrou, fez sua reverência, segundo costume daquela terra, a qual é juntar as mãoes e levantá-las para o céu, como costumam os cristãos levantar a Deus; e, assim como as levantam, abrem-nas e cerram os punhos mui asinha. E ele acenou ao capitão, com a mão direita, que se fosse para debaixo daquele cerrado onde ele estava; porém o capitão não chegava a ele, porque o costume da terra é não chegar nenhum homem ao rei, salvo chegava a ele um seu privado que lhe estava dando aquelas ervas; e quando algum homem lhe fala tem a mão ante a boca, e está arredado. Assim como acenou ao capitão olhou para nós outros, e mandou que nos assentássemos em um poial, perto dele, em lugar que nos via ele estar; e mandou-nos dar água às mãos, e mandou trazer uma fruta, que é feita como melões, salvo que de fora são crespos, mas de dentro são doces; e também nos mandou trazer outra fruta, que é como figos e sabe muito bem; e tínhamos homens que no-los estavam aparando, e el-rei estava olhando como nós comíamos, e estava-se rindo para nós; e falava com aquele seu privado, que estava à sua ilharga dando-lhe a comer aquelas ervas. E depois disto olhou ao capitão, que estava sentado defronte, e disse que falasse com aqueles homens com que estava, que eram muito honrados, e que lhes dissesse o que ele quisesse, e que eles lho diriam; respondeu o capitão-mor que ele era embaixador de el-rei de Portugal, e que lhe trazia uma embaixada e que não a havia de dar salvo a ele; disse el-rei que era muito bem, e logo o mandou levar dentro, a uma câmara; e, quando foi dentro, el-rei se levantou donde estava e se foi para o capitão, e nós ficámos em aquele lugar. Isto seria ali junto com o sol-posto; e, assim quando el-rei se alevantou, foi logo um homem velho que estava dentro, naquele patim, e levantou a camilha; e a baixela ficou ali; el-rei quando foi onde estava o capitão, lançou-se em outra camilha, em que estavam muitos panos lavrados de ouro, e fez pergunta ao capitão: que era o que queria? E o capitão lhe disse como ele era embaixador de um rei de Portugal, o qual era senhor de muita terra e era muito rico de todos as coisas, mais que nenhum rei daquelas partes; e que havia sessenta anos que os reis seus antecessores mandavam, cada ano, navios a descobrir aquelas partes, porquanto sabiam que, em aquelas partes, havia reis cristãos como eles. E que, por este respeito, mandavam a descobrir esta terra, e não porque lhes fosse necessário ouro nem prata, porque tinham tanto em abundância que lhes não era necessário havê-los desta terra; os quais capitães [desses navios] iam e andavam lá um ano e dois, até que lhes falecia o mantimento, e sem acharem nada voltavam para Portugal; e que agora um rei, que se chamava D. Manuel, lhe mandara fazer estes três navios e o mandara por capitão-mor deles; e lhe dissera que se ele não tornasse a Portugal até que lhe não descobrisse este rei dos cristãos, e que se tornasse que lhe mandaria cortar a cabeça; e que se o achasse que lhe desse duas cartas, as quais cartas lhe ele daria ao outro dia; e que assim lhe manda dizer, por palavras, que ele era seu irmão e amigo. El-rei respondeu a isto, e disse que ele fosse bem-vindo, e que assim o havia ele por irmão e amigo, e que ele lhe mandaria embaixadores a Portugal com ele; dizendo o capitão que assim lho pedia de mercê, porquanto ele não ousaria aparecer presente [a] el-rei, seu senhor, se não levasse alguns homens da sua terra. Estas e outras muitas coisas passaram [entre] ambos, dentro daquela câmara; e, porquanto era já muito noite, el-rei disse que: com quem queria ele pousar, se com cristãos, se com mouros? E o capitão lhe respondeu que nem com cristãos, nem com mouros; e que lhe pedia por mercê que lhe mandasse dar uma pousada sobre si, em que não estivesse ninguém; e el-rei disse que assim o mandava; e nisto se despediu o capitão de el-rei, e veio ter connosco onde estávamos lançados em uma varanda onde estava um grande castiçal de arame que nos alumiava; e isto seriam já bem quatro horas da noite. […]


Relação da primeira viagem à Índia pela armada chefiada por Vasco da Gama


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