Há 100 anos, na cidade de Braga, iniciava-se o movimento militar chefiado pelo general Gomes da Costa que iria pôr fim à 1.ª República e dar origem a um período de 48 anos de governos ditatoriais, em que nos primeiros anos o poder é exercido por militares - a chamada Ditadura Militar (1926 - 1933).
O processo de instauração da ditadura militar e de definição das chefias políticas do novo regime não foi linear, antes se revelou atribulado.
Não havia uma definição ideológica e programática do movimento, nem um desenho político e institucional do que deveria suceder ao parlamentarismo da 1.ª República.
Logo após o levantamento militar de Braga são evidentes as rivalidades e a desconfiança entre os vários militares e fações que integravam o vasto grupo político-militar que queria derrubar a "República Velha". Só esse objetivo os unia: acabar com a República parlamentar.
«No movimento do 28 de Maio convergiam grupos, interesses económicos e políticos de natureza diversa e muitas vezes contraditória, quer no que respeita aos projetos para o futuro quer no significado e nos objetivos concretos das clientelas que representavam.» (César Oliveira)
O 28 de Maio é o sinal da falência da República, anunciada como a cura de todos os males da sociedade monárquica.
«A melhoria das condições de vida da
maioria da população não se verificara, a moralização da vida política também
não, a ofensiva contra a igreja fora obrigada a recuar, a sangria devida à
emigração agravar-se-ia nos anos seguintes ao 5 de Outubro, o desequilíbrio
orçamental obrigara a esquecer os próprios funcionários do aparelho de Estado e
hostilizara as tropas, através da redução dos respetivos salários.» (Paulo Guinote)
A instabilidade política era permanente: sucediam-se os governos, as greves, as revoltas, os atentados. A situação agravou-se com a I Guerra Mundial e no pós-guerra.
Com este cenário de fundo, prosperavam as fraudes e a corrupção, destacando-se, em finais de 1925, o escândalo do Banco Angola e Metrópole e da duplicação das séries de notas de 500 escudos (a célebre burla de Alves dos Reis).
A classe média das cidades, sobretudo de Lisboa, que fora o sustentáculo da República, estava saturada.
«O país estava cansado. Havia uma indisposição geral contra a agitação, contra a falta de rumo.» (Gaspar Martins Pereira)
«A sociedade dos anos 20 estava, em suma, (...) à espera de um novo ponto de partida redentor, que não surgira com o 5 de Outubro, e de uma figura tutelar a quem pudesse entregar, descansada, a condução dos negócios da nação.» (Paulo Guinote) Um governo forte que restaurasse a ordem e a tranquilidade.
A esperança poderia estar nos militares, qual força salvadora. Segundo Oliveira Marques, «(…) muitos oficiais do Exército de altas patentes, de regresso da Guerra, cheios de prestígio e popularidade, convenceram-se de que deviam intervir na política e ser os melhores garantes do futuro de Portugal. (…) encontravam, todavia, compreensão e apoio em grande parte da opinião pública, cansada dos políticos e desejosa de encontrar neles os “messias” salvadores da Pátria.» Independentemente das suas capacidades, acrescento.
O protagonismo dos militares acentuara-se com a participação na Guerra. O seu número crescera - era excessivo, nomeadamente o número de oficiais, para as necessidades da paz e para a capacidade tributária do país.
As promoções estavam paralisadas e os vencimentos estagnados. Eles ocupavam, então, vários cargos políticos. Aliás, o intervencionismo militar na política é outro elemento caracterizador da crise.
Cerca de um mês antes do 28 de Maio, um influente político, republicano conservador, afirmava «O Exército move-se. O Exército está inquieto. O Exército não quer assistir ao afundar da Nação, e prepara-se para intervir. Será um crime aquilo que os militares pretendem fazer? Não! As suas intenções são as mais nobres e as mais levantadas, quando querem substituir pela sua força a fraqueza das pobres elites que nos governam.» (Cunha Leal)
Já em 1925, houvera duas tentativas no seio das forças armadas para pôr fim à 1.ª República: o movimento militar de 18 de abril e a revolta de 19 de Julho. O primeiro chefiado pelo general Sinel de Cordes (monárquico), o capitão-de-fragata Filomeno da Câmara (elemento da Cruzada Nun’Álvares) e o tenente-coronel Raul Esteves (republicano conservador); a revolta de 19 de Julho, chefiada pelo capitão-de-fragata Mendes Cabeçadas (republicano conservador). Nesta revolta as intenções expressas eram "restabelecer a ordem e a disciplina" e "libertar o país dos maus políticos e suas clientelas".
Faltava encontrar o líder capaz de uma ação vencedora. O general Alves Roçadas, militar prestigiado das campanhas africanas e da Flandres, foi o escolhido. Mas, tendo adoecido - veio a falecer a 28 de abril de 1926 - foi substituído nesse papel pelo general Gomes da Costa. Este, apesar da sua reputação como militar, não deixava de levantar dúvidas a propósito da sua consistência política.
Na véspera de 28 de Maio, o general Gomes da Costa seguiu de Lisboa para Braga, cidade onde iria iniciar o golpe que pôs fim à 1.ª República.








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