Desfile das tropas chefiadas pelo general Gomes da Costa, em Lisboa (Cais do Sodré), 6 de junho de 1926.
APRESENTAÇÃO: Este blogue começou por se destinar, essencialmente, aos meus alunos (dos 5.º e 6.º anos), procurando a interação possível quando não existiam as plataformas educativas. Com estas, o blogue perdeu o sentido de necessidade e foi diminuindo o número de novos posts. Mas, mesmo com a aposentação do seu autor, permanece como um espaço de arquivo que pode continuar a ser útil. Por interesse sobre os assuntos da História e da Geografia de Portugal, por gosto e por vício, serão partilhados novos posts... sem o sentido de obrigação, sem vinculação a orientações curriculares, ao ritmo do meu interesse e do meu tempo.

28 de maio de 2026

28 de Maio de 1926 - apenas o início...

Há 100 anos, na cidade de Braga, iniciava-se o movimento militar chefiado pelo general Gomes da Costa que iria pôr fim à 1.ª República e dar origem a um período de 48 anos de governos ditatoriais, em que nos primeiros anos o poder é exercido por militares - a chamada Ditadura Militar (1926 - 1933).

Quartel de Infantaria n.º 8 (Braga) de onde saíram as tropas comandadas pelo general Gomes da Costa

O processo de instauração da ditadura militar e de definição das chefias políticas do novo regime não foi linear, antes se revelou atribulado.

Não havia uma definição ideológica e programática do movimento, nem um desenho político e institucional do que deveria suceder ao parlamentarismo da 1.ª República.

Logo após o levantamento militar de Braga são evidentes as rivalidades e a desconfiança entre os vários militares e fações que integravam o vasto grupo político-militar que queria derrubar a "República Velha". Só esse objetivo os unia: acabar com a República parlamentar. 

«No movimento do 28 de Maio convergiam grupos, interesses económicos e políticos de natureza diversa e muitas vezes contraditória, quer no que respeita aos projetos para o futuro quer no significado e nos objetivos concretos das clientelas que representavam.» (César Oliveira)

General Gomes da Costa, capitão-de-fragata Mendes Cabeçadas e general Óscar Carmona, 
três dos principais militares envolvidos no movimento do 28 de Maio.
Todos eles, "empurrando-se", chegaram à Presidência da República. 

O 28 de Maio é o sinal da falência da República, anunciada como a cura de todos os males da sociedade monárquica.

«A melhoria das condições de vida da maioria da população não se verificara, a moralização da vida política também não, a ofensiva contra a igreja fora obrigada a recuar, a sangria devida à emigração agravar-se-ia nos anos seguintes ao 5 de Outubro, o desequilíbrio orçamental obrigara a esquecer os próprios funcionários do aparelho de Estado e hostilizara as tropas, através da redução dos respetivos salários.» (Paulo Guinote)


Caricaturas em Os Ridículos, 2//11/1921 e 1/5/1915

A instabilidade política era permanente: sucediam-se os governos, as greves, as revoltas, os atentados. A situação agravou-se com a I Guerra Mundial e no pós-guerra. 

Com este cenário de fundo, prosperavam as fraudes e a corrupção, destacando-se, em finais de 1925, o escândalo do Banco Angola e Metrópole e da duplicação das séries de notas de 500 escudos (a célebre burla de Alves dos Reis).

A classe média das cidades, sobretudo de Lisboa, que fora o sustentáculo da República, estava saturada.

«O país estava cansado. Havia uma indisposição geral contra a agitação, contra a falta de rumo.» (Gaspar Martins Pereira)

Caricatura em Os Ridículos, 9/11/1921

O regime mantinha-se através do domínio do PRP (Partido Republicano Português, também apelidado de Democrático, depois da cisão do PRP original, em 1912) e pela divisão das forças da oposição, incapazes de se entenderem. 

«A sociedade dos anos 20 estava, em suma, (...) à espera de um novo ponto de partida redentor, que não surgira com o 5 de Outubro, e de uma figura tutelar a quem pudesse entregar, descansada, a condução dos negócios da nação.» (Paulo Guinote) Um governo forte que restaurasse a ordem e a tranquilidade.

A esperança poderia estar nos militares, qual força salvadora. Segundo Oliveira Marques, «(…) muitos oficiais do Exército de altas patentes, de regresso da Guerra, cheios de prestígio e popularidade, convenceram-se de que deviam intervir na política e ser os melhores garantes do futuro de Portugal. (…) encontravam, todavia, compreensão e apoio em grande parte da opinião pública, cansada dos políticos e desejosa de encontrar neles os “messias” salvadores da Pátria.» Independentemente das suas capacidades, acrescento.

O protagonismo dos militares acentuara-se com a participação na Guerra. O seu número crescera - era excessivo, nomeadamente o número de oficiais, para as necessidades da paz e para a capacidade tributária do país. 

As promoções estavam paralisadas e os vencimentos estagnados. Eles ocupavam, então, vários cargos políticos. Aliás, o intervencionismo militar na política é outro elemento caracterizador da crise.

Cerca de um mês antes do 28 de Maio, um influente político, republicano conservador, afirmava «O Exército move-se. O Exército está inquieto. O Exército não quer assistir ao afundar da Nação, e prepara-se para intervir. Será um crime aquilo que os militares pretendem fazer? Não! As suas intenções são as mais nobres e as mais levantadas, quando querem substituir pela sua força a fraqueza das pobres elites que nos governam.» (Cunha Leal)

Já em 1925, houvera duas tentativas no seio das forças armadas para pôr fim à 1.ª República: o movimento militar de 18 de abril e a revolta de 19 de Julho. O primeiro chefiado pelo general Sinel de Cordes (monárquico), o capitão-de-fragata Filomeno da Câmara (elemento da Cruzada Nun’Álvares) e o tenente-coronel Raul Esteves (republicano conservador); a revolta de 19 de Julho, chefiada pelo capitão-de-fragata Mendes Cabeçadas (republicano conservador). Nesta revolta as intenções expressas eram "restabelecer a ordem e a disciplina" e "libertar o país dos maus políticos e suas clientelas". 

Militares nas ruas de Lisboa, 18 de abril de 1925

Notícia da revolta militar de 18 de abril de 1925, o Golpe dos Generais.
As colunas em branco seriam o resultado da censura - 
- o Diário de Lisboa esteve suspenso na semana seguinte. 

Desenhava-se uma dinâmica golpista. Em comum, a convergência de militares conservadores e de outros que iam marcando presença nos círculos extremistas do Integralismo Lusitano (movimento ideológico e político monárquico, tradicionalista e corporativo) e na Cruzada Nun'Álvares (movimento que defendia um nacionalismo acentuado, a valorização da grandeza nacional e o revigoramento da "raça"). Várias fações foram-se aliando, mesmo que desconfiadas umas em relação às outras.

Faltava encontrar o líder capaz de uma ação vencedora. O general Alves Roçadas, militar prestigiado das campanhas africanas e da Flandres, foi o escolhido. Mas, tendo adoecido - veio a falecer a 28 de abril de 1926 - foi substituído nesse papel pelo general Gomes da Costa. Este, apesar da sua reputação como militar, não deixava de levantar dúvidas a propósito da sua consistência política.

Na véspera de 28 de Maio, o general Gomes da Costa seguiu de Lisboa para Braga, cidade onde iria iniciar o golpe que pôs fim à 1.ª República.

Estátua de homenagem a Gomes da Costa, em Braga, 
frente ao edifício onde, em 1926, estava instalado o quartel de Infantaria 8. 


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