25 de Abril de 1974 - Militares na Av. Ribeira das Naus
APRESENTAÇÃO: Este blogue começou por se destinar, essencialmente, aos meus alunos (dos 5.º e 6.º anos), procurando a interação possível quando não existiam as plataformas educativas. Com estas, o blogue perdeu o sentido de necessidade e foi diminuindo o número de novos posts. Mas, mesmo com a aposentação do seu autor, permanece como um espaço de arquivo que pode continuar a ser útil. Por interesse sobre os assuntos da História e da Geografia de Portugal, por gosto e por vício, serão partilhados novos posts... sem o sentido de obrigação, sem vinculação a orientações curriculares, ao ritmo do meu interesse e do meu tempo.

29 de abril de 2026

Bicentenário da Carta Constitucional (1) - O contexto da sua origem

No dia 29 de Abril de 1826, D. Pedro IV (Rei de Portugal) e/ou D. Pedro I (Imperador do Brasil), no Rio de Janeiro, concedeu a Carta Constitucional aos portugueses.


Politicamente, Portugal vivia um atribulado regime liberal, iniciado em 1820. «Focando-nos apenas neste período de 1820 a 1834, podemos facilmente observar as lutas constantes e trágicas, em termos de ideologia e de guerra civil, que se verificaram entre "vintistas", conservadores liberais ("cartistas" depois da doação da Carta Constitucional) e tradicionalistas absolutistas.» (Luís Reis Torgal)

Em agosto de 1820, quando a família real ainda se encontrava no Brasil, dera-se a Revolução Liberal. Realizaram-se as primeiras eleições para as Cortes Constituintes, com o objetivo de elaborar a que viria a ser a primeira Constituição portuguesa e D. João VI foi "forçado" a regressar do Brasil.

Em 1822, o príncipe D. Pedro, que ficara no Brasil como regente, declarou a independência desse território, sendo aclamado imperador. Em Portugal, a Constituição foi aprovada pelos deputados constituintes e jurada pelo rei D. João VI. No entanto, a sua vigência foi efémera: cerca de 8 meses. 

D. Pedro classificou as primeiras Cortes liberais de "facciosas, horrorosas, maquiavélicas, desorganizadoras e pestíferas". A Constituição de 1822 era, segundo António Sérgio, «radical, quimérica, absolutamente inadaptável às condições de lugar e tempo. (...) uma ingénua vestimenta, debaixo da qual a sociedade continua como até aí: não se lhe tocara nas fontes vitais».

As reações à Constituição foram impetuosas, sobretudo por parte dos absolutistas ou realistas, chefiados pela rainha e pelo infante D. Miguel, que se recusaram a jurá-la.

O movimento (ou revolta) conhecido como a Vilafrancada (por Vila Franca de Xira ter sido o centro das principais ações) vai ter como consequência a abolição da vigência da Constituição - em 3 de junho de 1823 o rei dissolveu as Cortes e, por Carta de Lei de 4 de junho, declarou em vigor as leis tradicionais. Em 18 de junho, foi formada uma junta para preparar uma nova Constituição, mais moderada. 

Durante esse período, e após mais uma tentativa de golpe (a Abrilada, em 1824), D. Miguel foi obrigado a exilar-se.

D. Miguel, D. João VI e cartas trocadas entre os dois depois da Abrilada

O novo texto constitucional ficou como promessa até D. João VI morrer, em 10 de março de 1826, não sem antes ter instituído um Conselho de Regência sob a presidência de sua filha, D. Isabel Maria. Foi esse Conselho de Regência que, em 20 de março, reconheceu D. Pedro (o imperador do Brasil) como rei de Portugal.

A missão oficial portuguesa, chefiada pelo diplomata britânico Charles Stuart, que daria conhecimento dos acontecimentos de Lisboa a D. Pedro, só chegou ao Rio de Janeiro a 24 de abril.  


D. Pedro tomou, então, em poucos dias, uma série de decisões políticas, entre elas confirmar a regência de sua irmã, D. Isabel Maria, decretar uma Carta Constitucional para a monarquia portuguesa (de que agora ele era o titular), mandar convocar Cortes e proceder à eleição da Câmara dos Deputados.

Decidiu, também, abdicar do trono a favor da sua filha mais velha, D. Maria da Glória (D. Maria II), então com 7 anos, desde que esta se casasse com o infante D. Miguel (seu tio, exilado na Áustria) e a Carta Constitucional fosse acolhida e jurada em Portugal.

A Carta Constitucional, em grande parte decalcada da Constituição brasileira, promulgada dois anos antes, «foi ultimada em apenas 5 dias, num trabalho célere desenvolvido pessoalmente por D. Pedro, em conjunto com o seu secretário, Francisco Gomes da Silva». (Vital Moreira e José Domingues)

D. Pedro cumpriu, como disse, "as promessas do meu augusto pai de gloriosa memória".

Estátua de D. Pedro IV na Praça da Liberdade (Porto)
Na mão direita, a Carta Constitucional

A carta foi decretada no dia 29 de abril de 1826, tendo o documento original sido transportado para Lisboa por Charles Stuart, enquanto as segundas vias vieram através do encarregado de negócios de Portugal no Rio de Janeiro, Carlos Matias Pereira. Com a Carta vieram outros despachos de D. Pedro.

Assinalam-se hoje dois séculos que D. Pedro outorgou o texto constitucional português que, até ao momento, mais tempo esteve em vigor. 

A ele voltaremos...


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