A escolha da cidade de Braga para ponto
de partida do levantamento militar é compreensível. Essa decisão corrigiu o
erro cometido no Golpe dos Generais (18 de abril de 1925) com a escolha de
Lisboa – a capital ainda era a cidade onde o governo constitucional podia
encontrar forças militares mais dispostas a defendê-lo.Braga era um polo de conservadorismo
católico. Aí fora fundado, em 1915, o Centro Católico Português (partido pelo
qual Salazar chegou a ser eleito deputado em 1921), era uma das 4 cidades onde localizavam
as sedes das juntas militares regionais e, segundo António Telo, era “um reduto
de jovens tenentes atraídos pelo ideário do Integralismo Lusitano”, que
estariam ansiosos por entrar em ação.

Quando do início da rebelião, guarnições do Porto saíram da
cidade em direção ao Norte para defender o Governo. Gomes da Costa, sentindo ainda
pouco apoio, chegou a pensar em desistir do golpe, mas muitos dos oficiais daquelas
tropas não estavam na disposição de entrar em confronto com as forças de Gomes
da Costa, acabando por regressar ao Porto para, posteriormente, se porem às
ordens do general. Este, então, tinha tempo para dar entrevistas a vários
jornais, emitir declarações e redigir um manifesto, interpretando o que considerava ser o sentir do
povo: “A Nação quer um governo nacional militar rodeado das melhores
competências, quer um governo forte que tenha permissão de salvar a Pátria”.
A perspetiva de vitória fez
com que um número crescente de unidades militares fosse tomando partido a favor
da revolta. A divisão de Lisboa e a do Alentejo, esta comandada pelo general
Óscar Carmona, também aderiram ao golpe.

Gomes da Costa, que se
deslocara para o Porto, anunciou que iria “iniciar a marcha sobre Lisboa
rapidamente”… sobre carris e fazendo paragem nas “principais estações”, como
Coimbra e o Entroncamento (para uma ida a Tancos). Assegurado que estava o
sucesso da revolta, importava garantir o controlo do poder militar, reforçando
posições para a negociação política que já se ia fazendo ao longo da linha do
Norte, com a ida e vinda de emissários dos principais oficiais implicados.
Desfile do general Gomes da Costa no Porto
Entrada do general Gomes da Costa em Coimbra
A 3 de junho estava em
Sacavém e a 4 no Quartel da Aviação, na Amadora. O comando revolucionário
instalou o quartel-general na Amadora. Aí se encontraram Gomes da Costa,
Cabeçadas e Carmona, no dia 5, antes do desfile triunfal em Lisboa, no dia 6 de
junho, momento de consagração do exército como força redentora da Pátria.
Tropas em Sacavém
Mendes Cabeçadas e Gomes da Costa na Amadora
A formação do Governo, com um
movimentadíssimo jogo de cadeiras para putativos ministros, fora-se fazendo por
esses dias. Dias bastante conturbados, devido à luta pelo poder entre as forças
concorrentes envolvidos no movimento – como as matrioskas, revelou-se um golpe
militar com golpes militares dentro.
«O longo processo de
clarificação do regime deveu-se, em primeiro lugar ao facto de o golpe militar
se ter realizado em torno de um programa mínimo com um apoio máximo. De facto,
no período que antecede o golpe, a contestação à designada ditadura do Partido Democrático reúne um amplo leque de partidos
e forças políticas e sociais cujo principal objetivo era o derrube do Partido
Democrático, o vencedor crónico das eleições durante a primeira República. No
seio dessa ampla frente incluíam-se forças políticas com características e
objetivos absolutamente contraditórios. Havia quem defendesse um caminho de
transição para uma República regenerada, havia quem visse na ditadura um fim em
si – garantia da ordem e de uma política conservadora – abrindo o caminho para
os seus projetos de direita, e até a restauração da monarquia. (Luís Manuel
Farinha)
Gomes da Costa, Mendes Cabeçadas e Óscar Carmona
Quando em Lisboa se soube do
início da sublevação e após uma primeira nota oficiosa do Governo que afirmava
“há sossego no país… apenas uma parte da guarnição de Braga está revoltada”, as
unidades militares de Lisboa aderiram em massa, formando-se (por um dia) uma
Junta de Salvação Pública revolucionária, sob a liderança do capitão Mendes
Cabeçadas. O Governo chefiado por António Maria da Silva apresentou, então, a
sua demissão (29 de maio).
Na manhã do dia 30, o
Presidente da República, Bernardino Machado, indigitou Mendes Cabeçadas para
este formar governo. Nomeado presidente do Ministério, o governo formou-se
nesse dia, acumulando Cabeçadas, interinamente, todas as outras pastas. No
presente contexto, Mendes Cabeçadas ainda parecia ser a hipótese mais viável
para uma solução que, a prazo, pudesse salvaguardar o regime parlamentar da
República, mesmo que passando temporariamente por uma fase autoritária, qual
movimento regenerador, para pôr fim à corrupção, à demagogia e a ditadura dos
“democráticos” e expurgar os “maus” políticos.
No dia 31, o Presidente da
República renunciou ao cargo, transmitindo os seus poderes ao Ministério, o
mesmo será dizer Mendes Cabeçadas (o Ministério definitivo seria formado depois
da chegada de Gomes da Costa a Lisboa). No mesmo dia, encerraram as portas do
Congresso da República (parlamento), formalmente dissolvido a 9 de junho.
No dia 3 de junho, a lista de
ministros indigitados já tinha sofrido alterações em relação àquela apresentada
no dia 30, incluindo o nome de Oliveira Salazar como Ministro das Finanças e
mais dois ministros oriundos da Universidade de Coimbra (a “tuna de Coimbra”) e
com ligações aos meios católicos – era a concretização da ideia de congregar gente
nova e sem relação com o velho republicanismo.
Hesitante, só por insistência
Salazar acabaria por tomar posse (12 de junho) num governo que já tinha nova
composição.
Primeira reunião do 1.º Governo da Ditadura Militar,
Posteriormente, Gomes da
Costa, Ministro da Guerra e Ministro das Colónias, apresentou um plano de ação governativa
a que Mendes Cabeçadas não deu resposta positiva, pelo que este acabou por ser confrontado
com exigências por parte do núcleo de militares que se lhe opunham. Sem
condições para continuar, pediu a exoneração, sucedendo-lhe na Presidência da
República e na do Governo o próprio general Gomes da Costa (17 de Junho).
O novo Ministério, com uma
diferente composição, já não contava com Oliveira Salazar. Entre outros, entraram
mais militares implicados no 28 de Maio, como Gama Ochoa, para Ministro das
Colónias, Filomeno da Câmara Melo Cabral, nas Finanças, e Óscar Carmona,
Negócios Estrangeiros.
General Gomes da Costa - Retrato
oficial da Presidência da República
No dia 6 de Julho, por um
motivo lateral relacionado com questões eclesiásticas, Gomes da Costa fez novo
reajustamento no Ministério, excluindo os generais Carmona e Ochoa, mas a
maioria dos ministros declarou-se solidária com os excluídos, acabando o
próprio Gomes da Costa, sem apoios, por ser afastado, ficando prisioneiro no
palácio de Belém (9 de julho).
Os vencedores deste novo
golpe foram os generais Carmona e Sinel de Cordes, um monárquico já envolvido
na revolta de abril de 1925 e que desde o princípio do 28 de Maio manobrara nos
bastidores, procurando afastar Mendes Cabeçadas e influenciar a ação de Gomes
da Costa. António Telo sustenta que “enquanto praticamente todos os portugueses
conhecem o nome de Gomes da Costa, poucos sabem que Sinel de Cordes foi o
verdadeiro dirigente do 28 de Maio.”
General Sinel de Cordes
O general Carmona assumiu a
Presidência do Ministério, para além da pasta da Guerra; Sinel de Cordes entrou
no Governo como Ministro das Finanças. O general Filomeno da Câmara, que não se
mostrara solidário, foi afastado da governação. Carmona exercia interinamente,
ainda, as funções de Presidente da República.
Governo presidido pelo general Óscar Carmona
Gomes da Costa foi desterrado
para Angra do Heroísmo (11 de julho). Foi o fim da “balbúrdia belenense”, como
Cunha Leal chamou ao período em que o general Gomes da Costa esteve instalado
no Palácio de Belém.
Partida de Gomes da Costa e da sua família para o desterro em Angra do Heroísmo
Agora, a linha dura do
“conservadorismo militar autoritário” controlava as rédeas do poder, contra a “República
jacobina e urbana” e a sua Constituição, num ajuste de contas com os partidos e
as fórmulas políticas da 1.ª República, nomeadamente o parlamentarismo, no
mesmo rumo que outros países europeus, como a Espanha (com o general Miguel
Primo de Rivera), a Itália (sob a liderança de Benito Mussolini), a Polónia e
outros países do leste.
A assunção das Presidências
pelo general Óscar Carmona marcou o fim da fase mais caótica das disputas entre
os chefes militares – no mínimo, estava encontrado o Presidente da República
que faria a transição da Ditadura Militar para o Estado Novo. Foi o início do
que se poderá considerar uma nova fase daquela, mas não que tenha acabado de
todo o equilíbrio instável em que a Ditadura Militar sempre viveu, resultante
da luta entre blocos políticos.
Retrato oficial do Marechal Óscar Carmona
como Presidente da república
Mês e meio após o 28 de Maio,
Portugal já tinha experimentado 3 presidentes da República e 3 governos (sem
contar com remodelações internas). Quando se afirmava a necessidade da
estabilidade política…