Palácio da Ajuda - Exposição sobre D. Maria II (2021)
APRESENTAÇÃO: Este blogue começou por se destinar, essencialmente, aos meus alunos (dos 5.º e 6.º anos), procurando a interação possível quando não existiam as plataformas educativas. Com estas, o blogue perdeu o sentido de necessidade e foi diminuindo o número de novos posts. Mas, mesmo com a aposentação do seu autor, permanece como um espaço de arquivo que pode continuar a ser útil. Por interesse sobre os assuntos da História e da Geografia de Portugal, por gosto e por vício, serão partilhados novos posts... sem o sentido de obrigação, sem vinculação a orientações curriculares, ao ritmo do meu interesse e do meu tempo.

27 de setembro de 2026

Representação da Terra - a projeção Equal Earth



Para a representação plana da Terra usam-se as chamadas projeções cartográficas, técnicas para representar com a maior precisão possível a superfície terrestre, que é curva, num mapa plano (planisfério). Por este motivo, não existe uma representação perfeita do nosso planeta – todas as projeções de uma esfera numa superfície plana envolvem algum tipo de distorção.

Mas existem diferentes tipos de projeções cartográficas, cada uma privilegiando determinado aspeto da representação (dimensão, forma, etc.), e a sua escolha depende do objetivo do mapa. 



O planisfério mais conhecido é baseado na chamada projeção de Mercator, e é usado principalmente para a navegação marítima, não para representar corretamente as áreas. Essa projeção, desenvolvida pelo cartógrafo Gerhard Mercator, em 1569, é do tipo cilíndrico.

Projeção cilíndrica (Mercator)

Com a projeção Mercator, aplicando sempre em ângulos retos a rede de linhas (gratícula) formada pelos paralelos e pelos meridianos, verificamos que estes não convergem para os polos, mantendo a mesma distância entre si.

Ao preservar ângulos e direções, esta projeção era especialmente útil para a navegação (nomeadamente, por ajudar os marinheiros  a navegar utilizando as coordenadas da bússola), não para representar corretamente as áreas. Assim, o formato do mapa obtido altera bastante a perceção sobre o verdadeiro tamanho dos territórios. As áreas próximas dos polos “alargam-se”, tornando-se proporcionalmente muito maiores do que realmente são, enquanto as áreas mais próximas do Equador apresentam uma dimensão relativamente menor.

Nessa projeção, a dimensão da Gronelândia, por exemplo, aproxima-se da do continente africano, o mesmo acontecendo em relação à América do Sul, embora tenha, na realidade, uma área muito menor: 8 vezes em relação à América do Sul e 14 em relação a África.

Para corrigir essa distorção histórica, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que promove o abandono desta projeção em favor de uma representação cartográfica mais fiel à dimensão real dos continentes até agora “encolhidos”. A alternativa promovida é a projeção Equal Earth (Terra Igual), desenvolvida em 2018 por uma equipa internacional de cartógrafos.


Projeção Equal Earth

A projeção Equal Earth é uma projeção de área equivalente e, por isso, o objetivo primordial é preservar as proporções relativas das superfícies terrestres, o tamanho de cada país comparado com outros.

Nesta projeção, África, América do Sul e o Sul da Ásia ganham a sua verdadeira imponência geográfica e dimensão real, corrigindo o "eurocentrismo" visual da projeção de Mercator, sacrificando apenas uma pequena parte da precisão das formas nas bordas do mapa.


Comparação das duas projeções (Mercator e Equal Earth)

A referida aprovação pela ONU apela à promoção do mapa que mostra áreas mais semelhantes à realidade, preservando melhor, portanto, as proporções das massas terrestres. A resolução incentiva governos, escolas, órgãos de comunicação e plataformas digitais de mapeamento a atualizar os seus materiais didáticos e documentos oficiais. No entanto, a aprovação da resolução não é vinculativa: não obriga os Estados ou as instituições a abandonar a versão do Mercator.

No âmbito da educação, em materiais didáticos, já era usual a utilização de um outro tipo de projeção, a projeção de Robinson, desenvolvida por Arthur H. Robinson, em 1963, que procura um equilíbrio entre as distorções de tamanho e forma, embora não o consiga completamente, principalmente nas áreas mais distantes da linha do equador, tal como a projeção cilíndrica.

Projeção de Robinson



Comparação das projeções de Robinson e Equal Earth

6 de agosto de 2026

A Ponte que nasceu "estrela" há 60 anos

Já aqui falámos da Ponte 25 de Abril (ex-Ponte Salazar) - a Ponte sobre o Tejo - quando do seu 50.º aniversário.

Acrescentamos mais alguma informação, quando se comemoram os 60 anos da sua inauguração.

A inauguração oficial, no sábado, dia 6 de agosto de 1966, contou com a presença do Presidente da República, almirante Américo Tomás, do Presidente do Conselho de Ministros, Oliveira Salazar, dos membros do Governo e do Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira. A RTP fez uma longa cobertura de toda a cerimónia.



Ainda no âmbito da festa de inauguração, a fadista Amália Rodrigues cantou pela primeira (e última) vez perante Salazar, no Palácio de Queluz.




Alguns dados:

  • Comprimento do vão principal da ponte: 1013 metros
  • Profundidade do pilar sul (abaixo do nível da água): 80 metros
  • Profundidade do pilar norte (abaixo do nível da água): 35 metros
  • Altura das torres acima do nível da água: 191 metros
  • Altura livre (do tabuleiro) acima do nível da água: 70 metros
  • No primeiro ano, as portagens (existentes nos dois sentidos) registaram a passagem de 3,4 milhões de veículos, o que rendeu 76 125 escudos.


Salazar, cujo nome foi dado à ponte, não era um grande entusiasta desta nova infraestrutura, devido aos elevados custos financeiros envolvidos.

Mas a construção da ponte era premente para ligar as duas margens do Tejo na zona de Lisboa, de forma a promover o povoamento da Margem Sul, facilitar o estabelecimento ou o acesso a unidades de indústria pesada na península de Setúbal e aproveitar as potencialidades turísticas do Sul do país.

A ponte sobre o rio Tejo mais próxima de Lisboa era a Ponte Marechal Carmona, em Vila Franca de Xira (a cerca de 40 km da capital), inaugurada no final de 1951, já após a morte do marechal.

A Comissão criada em 1953, destinada a estudar e a propor a solução para a ligação de Lisboa a Almada, tinha recomendado como solução vantajosa a de uma ponte suspensa mista, com o objetivo de estabelecer as circulações rodoviária e ferroviária em tabuleiros independentes e sobrepostos.

Eram, também, recomendadas medidas que respondessem ao impacto que a ponte teria no desenvolvimento urbano da Margem Sul. Logo se considerou necessária a utilização intensiva de transportes públicos coletivos, designadamente os ferroviários.

De acordo com as recomendações, para que pudesse ser assegurada a instalação, em 2.ª fase, da ligação ferroviária, foi promovida a construção de um túnel à saída da ponte do lado de Almada.

Mas só cerca de 30 anos depois foi acrescentado o tráfego ferroviário. A 29 de julho de 1999 foi oficialmente inaugurada a travessia ferroviária entre as estações de Entrecampos (Lisboa) e do Fogueteiro.

A ponte sobre o Tejo, ex-libris do Estado Novo nos anos 60, constituiu a principal ligação com o Sul do país, papel dividido com a Ponte Vasco da Gama a partir de 1998 (29 de março), o ano da Exposição Mundial em Lisboa.





Moedas e selos comemorativos da inauguração da Ponte.


18 de julho de 2026

Fundação Calouste Gulbenkian - 70.º aniversário

O Decreto-Lei nº 40 690, de 18 de Julho de 1956, oficializava os estatutos da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG).

Criada por testamento de Calouste Sarkis Gulbenkian (1869 – 1955), magnata e filantropo de origem arménia, a FCG visava o apoio à Arte, à Ciência, à Educação e à Beneficência.

Calouste Gulbenkian acumulou uma fortuna colossal com base nos negócios de exploração de petróleo no Médio Oriente, tornando-se um dos homens mais ricos do mundo na primeira metade do século XX. Construiu, também, uma fabulosa colecção de arte, constituída por mais de 6 mil obras.

Refugiou-se em Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial (vindo de França, em 1942, com a ideia de aqui “fazer escala” para seguir para os EUA) e aqui acabou por viver até ao final da sua vida, no Hotel Aviz, à época o mais luxuoso hotel da capital (demolido em 1962).  

Hotel Aviz - sala de estar

Para edificar o complexo da sede e museu da Fundação, para além dos jardins, foi comprado o terreno do Parque de Santa Gertrudes, em Palhavã, onde antes funcionara o primeiro Jardim Zoológico de Lisboa (1884) e a Feira Popular (1943).   

Vista aérea do Parque de Santa Gertrudes (ao centro),
ainda com equipamentos da Feira Popular. 

Esse complexo, a que foi acrescentado, em 1983, o Centro de Arte Moderna (CAM), foi inaugurado a 2 de Outubro de 1969. Mas nessa data já funcionavam serviços de atividades na área da educação, saúde, música, belas-artes e bibliotecas, tinham sido criados o Instituto de Investigação Científica Gulbenkian, o Plano de Edições de obras estrangeiras traduzidas, a Orquestra Gulbenkian, o Grupo Gulbenkian de Bailado e o Coro Gulbenkian. Em 1965 patrocinara a primeira Campanha Nacional de Vacinação.

O projecto da sede, do museu e do jardim foi uma obra marcante em termos arquitectónicos, tendo sido classificada como Monumento Nacional. Os edifícios são da autoria de Ruy d’Athouguia, Pedro Cid e Alberto Pessoa, e os jardins de Gonçalo Ribeiro Telles e António Viana Barreto.

A sede, o museu e os jardins em construção (final da década de 60) 

Com 70 anos, a FCG continua a ser uma referência global em todas as suas áreas de actuação.

José Carlos Vasconcelos, na revista Visão de 16 de Junho, escreve:

«(…) a Fundação Calouste Gulbenkian mudou Portugal. Ou ajudou decisivamente a mudar Portugal. Para melhor. Sempre. Numas fases mais do que noutras, com picos e menos altos, dependendo também de factores externos. E, creio, sobretudo, ou de forma mais nítida, nos seus primeiros quase 20 anos, durante a ditadura.

Nesse tempo a Fundação foi, quanto possível, uma espécie de Ministério da Cultura e de Ministério da Ciência que não existiam. Além, quanto as circunstâncias o permitiam, um exemplo de autonomia perante o totalitário poder vigente, no sentido de não condicionar aos seus, desse poder, interesses e critérios políticos os apoios nas suas áreas de intervenção (artes/cultura, social/desenvolvimento humano, educação, ciência).»

Jardins

Biblioteca (especializada em arte)

Grande auditório

Museu Gulbenkian, agora remodelado

Para comemorar o 70.º aniversário, as entradas no Museu serão gratuitas até ao próximo dia 26 de Julho.

14 de julho de 2026

Há 50 anos - tomada de posse do PR Ramalho Eanes

A 14 de julho de 1976, o general Ramalho Eanes foi investido como Presidente da República - o primeiro eleito após o 25 de Abril de 1974.

No mesmo dia foi oficialmente nomeado chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas pelo Conselho da Revolução.






21 de junho de 2026

28 de Maio de 1926 - A ditadura que não pôs fim à instabilidade política

A Ditadura Militar resultante do golpe de 28 de Maio herdou os problemas da 1.ª República a que pôs fim. Manteve-se a instabilidade política e administrativa: sucederam-se os governos (sete entre 1926 e 1932), sucederam-se as revoltas militares, só as dificuldades económicas e financeiras se mantiveram.

Não havia nos primeiros governos que se constituíram uma ideologia clara ou um programa definido de ação, nem dirigentes com competência para responder aos problemas mais prementes do país.

Nos ministérios e nos postos administrativos a todos os níveis foram nomeados oficiais de carreira que substituíram os civis.

Governo do general Óscar Carmona

As primeiras ações dos seus governos foram, sobretudo, repressivas: a dissolução do parlamento (Congresso da República), o estabelecimento da censura, proibição de jornais, saneamentos, a criação de uma polícia política, a detenção e deportação de centenas de republicanos e a proibição dos partidos políticos.

Os principais dirigentes republicanos exilaram-se.

De início, a maioria da população, cansada da agitação política e social, aceitou o governo da ditadura, mas este foi sendo progressivamente mais repressivo, limitando as liberdades e os direitos, o que indispôs certos setores, mesmo militares, que inicialmente tinham apoiado o movimento.

Douglas Wheeler contabiliza os movimentos militares entre 1927 e 1931: «Durante esse período, fermentaram mais de uma dúzia de conspirações militares, e oito delas chegaram efetivamente às ruas. Mais de quatrocentas pessoas foram mortas, milhares foram feridas, e o exército e a polícia detiveram, encarceraram e deportaram para os Açores e para as colónias africanas milhares de prisioneiros.» Foram as “heroicas e desesperadas batalhas do fim”, na expressão de Fernando Rosas.

Revolta de 3 de fevereiro de 1927, no Porto


Mas, depois de integrar o governo de Gomes de Costa, o general Carmona foi consumando o processo ditatorial, “decantando politicamente a amálgama inicial do movimento militar”. (João Baptista Serra)

Fernando Rosas assinala as particularidades que levaram à escolha do general Carmona para Presidente do Ministério por parte dos sinelianos: «por ser um low profile, uma figura consensual entre os comandos das Forças Armadas, onde se lembra e respeita a sua intervenção como promotor no julgamento do 18 de Abril [revolta militar anti-republicana, 1925], onde se reconhece o seu apego à unidade da instituição militar, a sua prudência, o seu espírito conciliador e, sobretudo, a ausência de excessivas ambições de mando.» Quanto a esta “ausência”… Carmona só abandonaria a Presidência da República 25 anos depois, a meio de mais um mandato, por motivo do seu falecimento.

Em contrapartida, o general Sinel de Cordes, nomeado Ministro das Finanças no Governo de 9 de julho de 1926, falharia nas suas funções, traçando a sua queda: mostrou-se incapaz de travar as pressões dos grandes negócios e das forças armadas, perdendo o controlo dos gastos. Nos 2 anos incompletos do seu mandato, as despesas militares subiram para 27% dos gastos públicos.

Também falhou a sua tentativa de conseguir empréstimos externos junto do Banco de Inglaterra (com quem tinha também de negociar o pagamento da dívida de guerra) e da Sociedade das Nações.

Eleição do Presidente da República (25 de março de 1928)

Diário de Lisboa de 14 de abril de 1928

Com Sinel de Cordes em queda, realizaram-se as primeiras eleições presidenciais, em que Carmona foi o único candidato (25 de março de 1928). A sua vitória conduziria à nomeação de um novo governo (18 de abril de 1928), chefiado pelo general Vicente de Freitas. Separaram-se, então, ao fim de 2 anos de ditadura, as funções de Presidente da República e de Presidente do Ministério. Nesse governo um ministro só tomaria posse no dia 27 de abril (na véspera de perfazer 39 anos de idade), depois de Duarte Pacheco, Ministro da Instrução Pública, ter ido a Coimbra convencê-lo a aceitar o cargo.

O professor Oliveira Salazar, o ministro em causa, que já experimentara o cargo por um curto espaço de tempo, em junho de 1926, publicara uma série de artigos na imprensa, nos últimos meses, em que criticava a política de Sinel de Cordes, chegando, em janeiro de 1928, a ter partes desses textos censurados.

Tomada de posse de Oliveira Salazar como Ministro das Finanças.
O célebre discurso de "Sei o que quero e para onde vou" (27 de abril de 1928).

O programa do novo Governo acentuou a austeridade na política económica e financeira. A rápida resolução dos problemas da dívida flutuante ao estrangeiro e da dívida interna construiu o mito do “mago das Finanças”.

«Salazar impunha-se, antes de mais, pelo relativo êxito obtido no reequilíbrio das contas públicas, êxito muito realçado pela ação desastrosa do general Sinel de Cordes que o antecedera. Será esse propalado sucesso atribuído a Salazar que permitirá a sua paulatina mas segura ascensão no seio da ditadura, à qual irá impor, a pouco e pouco, um caminho novo.» (Luís Manuel Farinha)

Verificou-se, então, a consolidação e a institucionalização da Ditadura Militar, mas abrindo caminho ao Estado Novo.

Salazar foi reforçando o seu poder e nas crises políticas que se seguiram os sacrificados foram os chefes de Governo (generais Vicente de Freitas, 1929, e Ivens Ferraz, 1930). Para Carmona era inegociável a participação de Salazar nos governos.

Generais José Vicente de Freitas e Artur Ivens Ferraz


«A relação de confiança entre Carmona e Salazar foi a pedra angular no processo de edificação do Estado Novo.» (Douglas Wheeler)


General Carmona e Salazar, em Braga, 28 de maio de 1928

O general Ivens Ferraz, um republicano conservador, terá sido o último a acreditar numa “República regenerada que pudesse manter as liberdades e a democracia embora compatibilizadas com um executivo forte sem dependências exclusivas das maiorias parlamentares”. Para Salazar era necessário “uma ordem nova, quer do ponto de vista político-institucional quer do ponto de vista económico e social”. [palavras dos próprios]

Adelino Maltez considera que «o nó górdio das finanças marca, com efeito, o fim da possibilidade de recuperação democrática da Ditadura.»


O último chefe de Governo da Ditadura Militar que antecedeu Salazar, general Domingos de Oliveira (1930-32), já tinha um pensamento político mais próximo ao de Salazar e a sua ação, como reconheceu este último, “fomentou, tornou possível a mais importante viragem da vida política do seu e do nosso tempo”. As bases fundamentais em que iria assentar o Estado Novo foram então lançadas.    

Salazar e o general Domingos de Oliveira


«Em nenhum país europeu o processo de derrube do Estado liberal, fosse por meios mais ou menos pacíficos, pelo golpismo militar ou até pela guerra civil, se fez sem esse processo de concertação e unificação das direitas sob um comando unificado.» (Fernando Rosas)

Tomada de posse de Salazar como Chefe do Governo


Em 5 de julho de 1932, Oliveira Salazar ascendeu à chefia formal do Governo, começando a institucionalizar-se um novo modelo de regime que se concretizou com a aprovação de uma nova Constituição, plebiscitada em 19 de março de 1933.

É, formalmente, o fim da Ditadura Militar e o início do Estado Novo. A uma ditadura sucede outra.

Notícias Ilustrado, 5 de junho de 1932