Braga era um polo de conservadorismo católico. Aí fora fundado, em 1915, o Centro Católico Português (partido pelo qual Salazar chegou a ser eleito deputado em 1921), era uma das 4 cidades onde localizavam as sedes das juntas militares regionais e, segundo António Telo, era “um reduto de jovens tenentes atraídos pelo ideário do Integralismo Lusitano”, que estariam ansiosos por entrar em ação.
Quando do início da rebelião, guarnições do Porto saíram da cidade em direção ao Norte para defender o Governo. Gomes da Costa, sentindo ainda pouco apoio, chegou a pensar em desistir do golpe, mas muitos dos oficiais daquelas tropas não estavam na disposição de entrar em confronto com as forças de Gomes da Costa, acabando por regressar ao Porto para, posteriormente, se porem às ordens do general. Este, então, tinha tempo para dar entrevistas a vários jornais, emitir declarações e redigir um manifesto, interpretando o que considerava ser o sentir do povo: “A Nação quer um governo nacional militar rodeado das melhores competências, quer um governo forte que tenha permissão de salvar a Pátria”.
Gomes da Costa, que se deslocara para o Porto, anunciou que iria “iniciar a marcha sobre Lisboa rapidamente”… sobre carris e fazendo paragem nas “principais estações”, como Coimbra e o Entroncamento (para uma ida a Tancos). Assegurado que estava o sucesso da revolta, importava garantir o controlo do poder militar, reforçando posições para a negociação política que já se ia fazendo ao longo da linha do Norte, com a ida e vinda de emissários dos principais oficiais implicados.
«O longo processo de clarificação do regime deveu-se, em primeiro lugar ao facto de o golpe militar se ter realizado em torno de um programa mínimo com um apoio máximo. De facto, no período que antecede o golpe, a contestação à designada ditadura do Partido Democrático reúne um amplo leque de partidos e forças políticas e sociais cujo principal objetivo era o derrube do Partido Democrático, o vencedor crónico das eleições durante a primeira República. No seio dessa ampla frente incluíam-se forças políticas com características e objetivos absolutamente contraditórios. Havia quem defendesse um caminho de transição para uma República regenerada, havia quem visse na ditadura um fim em si – garantia da ordem e de uma política conservadora – abrindo o caminho para os seus projetos de direita, e até a restauração da monarquia. (Luís Manuel Farinha)
Quando em Lisboa se soube do início da sublevação e após uma primeira nota oficiosa do Governo que afirmava “há sossego no país… apenas uma parte da guarnição de Braga está revoltada”, as unidades militares de Lisboa aderiram em massa, formando-se (por um dia) uma Junta de Salvação Pública revolucionária, sob a liderança do capitão Mendes Cabeçadas. O Governo chefiado por António Maria da Silva apresentou, então, a sua demissão (29 de maio).
Na manhã do dia 30, o Presidente da República, Bernardino Machado, indigitou Mendes Cabeçadas para este formar governo. Nomeado presidente do Ministério, o governo formou-se nesse dia, acumulando Cabeçadas, interinamente, todas as outras pastas. No presente contexto, Mendes Cabeçadas ainda parecia ser a hipótese mais viável para uma solução que, a prazo, pudesse salvaguardar o regime parlamentar da República, mesmo que passando temporariamente por uma fase autoritária, qual movimento regenerador, para pôr fim à corrupção, à demagogia e a ditadura dos “democráticos” e expurgar os “maus” políticos.
No dia 31, o Presidente da República renunciou ao cargo, transmitindo os seus poderes ao Ministério, o mesmo será dizer Mendes Cabeçadas (o Ministério definitivo seria formado depois da chegada de Gomes da Costa a Lisboa). No mesmo dia, encerraram as portas do Congresso da República (parlamento), formalmente dissolvido a 9 de junho.
Hesitante, só por insistência
Salazar acabaria por tomar posse (12 de junho) num governo que já tinha nova
composição.
O novo Ministério, com uma
diferente composição, já não contava com Oliveira Salazar. Entre outros, entraram
mais militares implicados no 28 de Maio, como Gama Ochoa, para Ministro das
Colónias, Filomeno da Câmara Melo Cabral, nas Finanças, e Óscar Carmona,
Negócios Estrangeiros.
Os vencedores deste novo golpe foram os generais Carmona e Sinel de Cordes, um monárquico já envolvido na revolta de abril de 1925 e que desde o princípio do 28 de Maio manobrara nos bastidores, procurando afastar Mendes Cabeçadas e influenciar a ação de Gomes da Costa. António Telo sustenta que “enquanto praticamente todos os portugueses conhecem o nome de Gomes da Costa, poucos sabem que Sinel de Cordes foi o verdadeiro dirigente do 28 de Maio.”
O general Carmona assumiu a
Presidência do Ministério, para além da pasta da Guerra; Sinel de Cordes entrou
no Governo como Ministro das Finanças. O general Filomeno da Câmara, que não se
mostrara solidário, foi afastado da governação. Carmona exercia interinamente,
ainda, as funções de Presidente da República.
Gomes da Costa foi desterrado para Angra do Heroísmo (11 de julho). Foi o fim da “balbúrdia belenense”, como Cunha Leal chamou ao período em que o general Gomes da Costa esteve instalado no Palácio de Belém.
Agora, a linha dura do “conservadorismo militar autoritário” controlava as rédeas do poder, contra a “República jacobina e urbana” e a sua Constituição, num ajuste de contas com os partidos e as fórmulas políticas da 1.ª República, nomeadamente o parlamentarismo, no mesmo rumo que outros países europeus, como a Espanha (com o general Miguel Primo de Rivera), a Itália (sob a liderança de Benito Mussolini), a Polónia e outros países do leste.
A assunção das Presidências pelo general Óscar Carmona marcou o fim da fase mais caótica das disputas entre os chefes militares – no mínimo, estava encontrado o Presidente da República que faria a transição da Ditadura Militar para o Estado Novo. Foi o início do que se poderá considerar uma nova fase daquela, mas não que tenha acabado de todo o equilíbrio instável em que a Ditadura Militar sempre viveu, resultante da luta entre blocos políticos.
Mês e meio após o 28 de Maio,
Portugal já tinha experimentado 3 presidentes da República e 3 governos (sem
contar com remodelações internas). Quando se afirmava a necessidade da
estabilidade política…

















